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NR-1Por Eliton Silva·10 de março de 20267 min de leitura

Saúde mental no trabalho: o que muda com a atualização da NR-1

A NR-1 agora exige que empresas identifiquem e gerenciem riscos psicossociais. Entenda o que são, por que importam e como se adequar sem complicação.

O cenário que levou à mudança

O Brasil registrou mais de 288 mil afastamentos por transtornos mentais em 2024 — um aumento de 67% em relação a 2023, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Ansiedade, depressão e burnout já são a terceira maior causa de afastamento no país, atrás apenas de lesões musculoesqueléticas e doenças respiratórias.

Diante desse cenário, o Ministério do Trabalho e Emprego atualizou a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), incluindo explicitamente os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). A mudança entrou em vigor em 26 de maio de 2025 e afeta todas as empresas com empregados registrados.

O que são riscos psicossociais?

Riscos psicossociais são fatores do ambiente de trabalho que podem causar danos à saúde mental, emocional ou física dos trabalhadores. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) os define como aspectos do desenho do trabalho, organização e gestão que têm potencial de causar dano.

Na prática, incluem:

  • Carga de trabalho excessiva — prazos irrealistas, volume desproporcional, multitarefas constante
  • Falta de autonomia — microgerenciamento, ausência de participação nas decisões
  • Relações interpessoais tóxicas — assédio moral, conflitos recorrentes, liderança autoritária
  • Desequilíbrio esforço-recompensa — alta exigência sem reconhecimento proporcional
  • Insegurança no emprego — ameaças veladas, instabilidade contratual
  • Jornadas prolongadas — horas extras habituais, falta de desconexão digital

Esses fatores não são "frescura" nem "problema pessoal". São riscos ocupacionais com evidência científica robusta de dano — tão reais quanto ruído excessivo ou exposição a produtos químicos.

O que a NR-1 atualizada exige

A norma agora determina que o PGR deve contemplar riscos psicossociais. Isso significa que toda empresa precisa:

1Identificar os fatores de risco psicossocial presentes no ambiente de trabalho
2Avaliar a gravidade e a probabilidade de cada risco
3Classificar os riscos por nível (baixo, moderado, alto, crítico)
4Implementar medidas de prevenção e controle
5Monitorar a eficácia das medidas ao longo do tempo
6Documentar tudo no inventário de riscos e no plano de ação

A fiscalização será feita pelas Superintendências Regionais do Trabalho (SRTs), com possibilidade de autuação e multa por descumprimento.

Quem é afetado

Todas as empresas com empregados CLT, independentemente do porte ou segmento. Não existe carência ou prazo de adaptação estendido — a obrigação já está valendo.

Empresas de menor porte podem adotar procedimentos simplificados, mas não estão isentas. O MEI com empregado, a startup com 5 pessoas e a multinacional com 10 mil — todos precisam gerenciar riscos psicossociais.

Como funciona a avaliação na prática

A avaliação de riscos psicossociais é feita por meio de instrumentos de rastreio validados cientificamente. Não se trata de "pesquisa de satisfação" ou questionário informal. Os instrumentos mais utilizados no Brasil incluem:

  • COPSOQ II-Br (Copenhagen Psychosocial Questionnaire — versão curta brasileira, validada por Gonçalves et al., Rev Saúde Pública, 2021) — cobre 11 dimensões: demandas, liderança, relações interpessoais, satisfação, significado, valores, saúde geral, burnout e mais
  • EET (Escala de Estresse no Trabalho, Paschoal & Tamayo, 2004) — foca em estressores ocupacionais
  • ERI (Effort-Reward Imbalance, Siegrist et al.) — mede o desequilíbrio entre esforço e recompensa

Esses questionários são aplicados aos colaboradores de forma anônima, as respostas são tabuladas e geram um diagnóstico por dimensão psicossocial, com scores que indicam o nível de risco em cada área.

A partir do diagnóstico, a empresa elabora um plano de ação com medidas concretas: treinamentos, mudanças organizacionais, revisão de processos, acompanhamento de lideranças.

Os erros mais comuns

Muitas empresas estão cometendo equívocos na tentativa de se adequar:

Usar pesquisa de clima como substituto. Pesquisas de clima medem satisfação, não risco. Não utilizam instrumentos validados e não geram classificação de risco por dimensão. Servem como complemento, não como substituto.

Delegar apenas para o RH. A gestão de riscos psicossociais é uma obrigação de SST, não de RH. O RH participa, mas o PGR precisa ser coordenado pela área de segurança ou por um profissional habilitado.

Avaliar uma vez e esquecer. A NR-1 exige monitoramento contínuo. Não basta fazer um diagnóstico por ano. É preciso acompanhar indicadores, comparar ciclos e ajustar as medidas.

Ignorar a documentação. Sem inventário de riscos e plano de ação documentados, a empresa está em descumprimento mesmo que faça tudo certo na prática.

O impacto além do compliance

Empresas que investem na gestão de riscos psicossociais colhem resultados que vão além de evitar multas:

  • Redução de absenteísmo — menos afastamentos por transtornos mentais
  • Menor rotatividade — colaboradores que se sentem cuidados permanecem mais tempo
  • Aumento de produtividade — ambientes saudáveis geram mais engajamento
  • Proteção jurídica — documentação robusta reduz passivo trabalhista
  • Reputação empregadora — atrai talentos em um mercado cada vez mais exigente

Um estudo da OMS estima que para cada US$ 1 investido em saúde mental no trabalho, há um retorno de US$ 4 em produtividade. Não é custo — é investimento com retorno mensurável.

Próximos passos

Se sua empresa ainda não começou a se adequar, o caminho é direto:

1Cadastre seus colaboradores em uma plataforma que aplique instrumentos validados
2Aplique o primeiro ciclo de pesquisa para obter o diagnóstico basal
3Analise o diagnóstico e identifique as dimensões de maior risco
4Elabore o plano de ação com medidas específicas, responsáveis e prazos
5Gere a documentação (inventário de riscos, relatório de clima, plano de ação em PDF)
6Monitore com ciclos regulares para medir a evolução

Quanto antes começar, mais preparada estará para uma eventual fiscalização — e mais benefícios reais seus colaboradores sentirão.

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